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Por Devan Dev   
16 de janeiro de 2007
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Correntes
Página 2

 

Sinopse: Legolas e Faramir passaram muitos anos juntos dentro das fronteiras de Ithilien. Como eles vieram a dividir o poder? Legolas, Faramir, e um pouco de Aragorn..

Gênero: Drama

Classificação: Livre

Disclaimer: O Senhor dos Anéis pertence a Tolkien. Esta estória foi feita sem interesses comerciais.

Original em Inglês: Chains



"Legolas, venha à frente."


Ele o fez, movendo-se deliberadamente ao centro da caverna escondida nos profundos recessos da Henneth Annun, iluminada apenas pela luz tremulante de tochas. Escuro, úmido, e antigo era como esse lugar parecia ser ao elfo. Ele não gostava de estar abaixo do solo, o peso de incontáveis toneladas de rocha e terra suspensas acima dele, as paredes debruçando-se sobre si, mas ainda assim estava lá. Ele podia ir embora, e sabia disso, mas jamais seria-lhe permitido que retornasse.

"Retire suas roupas."

Ainda demonstrando a confiança exterior que todos os elfos parecem possuir, ele retirou os sapatos, cinto, túnica e malha, e, após uma hesitação quase que imperceptível, as suas roupas de baixo. Ele ficou de pé, exposto, na luz tremulante, ele próprio brilhando levemente, um ser de pureza, radiante, preso na iluminação âmbar. Até mesmo os seus cabelos dourados pareciam rivalizar com as chamas. Dez homens estavam de pé ao seu redor, nenhum falhando em apreciar a visão de uma beleza tão selvagem, apesar de apenas dois deles terem a percepção de ler o crescente desconforto do ser do reino da floresta.

"Ajoelhe-se."

Isso era o mais difícil. Nudez não era algo extraordinário entre os elfos, e não era algo muito difícil para eles tolerarem; até mesmo o morar sob a superfície quando as circunstâncias o ditavam, como dentro do palácio de seu pai, mas se ajoelhar perante estranhos era um gesto íntimo de submissão que não vinha facilmente. Mesmo perante senhor e rei, protocolo ordenava ao suplicante que dobrasse apenas um joelho. Ambos os joelhos diminuía a dignidade e subtraía a força, falava de uma inferioridade e necessidade implícitas. A terra macia do chão da caverna foi de pouco consolo.

Um dos homens veio à frente e sussurrou suavemente ao ouvido do arqueiro élfico: “Você não precisa fazer isso. Os Primogênitos não se submetem a ninguém.”

“E se eu não o fizer? Você pensará que sou um covarde?” As palavras duras falaram de sua ansiedade, pois elfos não são nada senão graciosos. “Eu farei o que for necessário, merecerei o meu lugar como qualquer outro. Ou você acha que isso está além de mim?” A cabeça dourada erguida, os olhos azuis brilhando, desafiando o homem que o negasse.

“Não, é claro que não.” A figura suspirou, correndo uma mão pelos seus cabelos castanhos, tirou algo escuro de seu cinto.

“Você confia em mim, Legolas?” Isso era importante. O ritual dependia disso, não poderia prosseguir sem a confiança incondicional do elfo. “Eu não prosseguirei em face da sua dúvida.”

Legolas fechou os olhos e inclinou sua cabeça brevemente, se em impaciência ou apreensão não estava claro, e então acenou com a cabeça uma vez. “Sim, eu confiei em você do momento em que o vi”.

Com um sorriso gentil, Faramir prosseguiu a colocar a venda, mergulhando o elfo da floresta em uma escuridão ainda maior.


Cinco dias atrás, Legolas estava viajando pela floresta, saltando de galho em galho, rindo com seu escolte, encaminhando-se à recém construída casa do primeiro príncipe de Ithilien. Ele conhecia Faramir apenas de passagem, mas já estava impressionado com a profundidade de seus conhecimentos, a sua perspicácia, a sua força interior e a sua calma compaixão. Poucos homens conseguiam atrair a atenção dos Eldar desta forma; Aragorn, é claro, e um ou dois dos seus guardiões. O príncipe Imrahil era um homem interessante, e havia algo sobre Théoden que fazia alguém olhá-lo novamente, mas Faramir era especial. Talvez fosse a sua criação trágica, a perda de seu irmão, ou do amor de seu pai antes mesmo disso, ou da morte prematura de sua mãe no início da sua infância. Ou talvez simplesmente ter crescido à sombra de Mordor. Tanta dor e perda. Ao invés de tornar-se amargo como faria a muitos, parecia ter temperado a sua alma como a mithril finamente forjado; delicado, e ao mesmo tempo forte. Legolas decidiu que gostaria de conhecer mais dele.

Ele encontrou o rei presente ao chegar, visitando o seu regente, segundo ele, mas todos sabiam que ele estava mesmo era escapando do calor recalcitrante da cidade no meio do verão. Não era por acaso que Ithilien era chamada de Jardim de Gondor. De qualquer forma, Legolas estava feliz em ver ambos os homens; o primeiro, um antigo amigo, o segundo, simplesmente um amigo sobre o qual havia muito que se descobrir.

Quanto mais Legolas observava Faramir, mais ele ficava fascinado por ele. Cabelos negros, olhos cinzentos, o mesmo físico básico que o seu povo ao norte, alto, sem ser musculoso, mas sem também ser magro. Ele puxara ao seu pai, diziam, no intelecto e estudos, e na habilidade de ver dentro do coração de outros. Estranho então que Boromir, que de todas as formas era surpreendentemente diferente de seu pai, ser o preferido. Talvez, como o herdeiro aparente, Denethor pode ter pensado em investir mais de si mesmo no seu primogênito, mas não fazia sentido negligenciar o seu filho caçula completamente. Acidentes não eram incomuns, o ‘sobressalente’ era quase tão provável de chegar ao governo quanto o primeiro na linha de sucessão. E dizia-se que a negligência de Denethor não era apenas em longo prazo, mas ocasionalmente abusiva. Estava claro para Legolas que ele entendia muito pouco dos costumes dos Homens. Para os elfos, todas as crianças eram preciosas.

A noite foi passada agradavelmente, cada um recontando os seus vários papéis na Guerra do Anel, e a conclusão triunfante a qual Faramir quase tão terrivelmente perdera. O Regente estava particularmente interessado no interlúdio da Sociedade entre os elfos. Ele não se cansava de ouvir sobre a Senhora Galadriel, cujo nome não era desconhecido em Minas Tirith, nem a casa de Elrond. Como fora tornar-se adulto no Vale Escondido? Foram os filhos do Peredhil que o ensinaram o uso da espada? Ele realmente conhecia Glorfindel, o matador de Balrogs? Por que Lothlórien era chamada de Floresta Dourada? E sobre os anéis Élficos, agora que o Um anel estava destruído?

Oh, ele havia visto muitos senhores e nobres élficos no casamento de Aragorn, é claro, mas estava tão embasbacado que não conseguira tirar muita vantagem da grande oportunidade que se apresentou naquele momento. Sim, a Senhora da Luz era realmente magnífica (apesar de ele particularmente concordar com Éomer de que a Lady Arwen era mais bela); a sabedoria de Elrond brilhava de sua fronte como um farol, os seus filhos de pé por trás dele como avatares dos Valar; e Celeborn, profundo e misterioso, assistia com seriedade enquanto a sua neta se entregava a um rei mortal. Foi um momento saído de lendas, e profundamente intimidante para alguém que sempre vivera na sombra do seu sempre celebrado irmão.

Mas agora, neste pequeno encontro íntimo da realeza, era a sua oportunidade de descobrir o que a sua reticência tinha-lhe negado antes. Quando ele havia exaurido tudo que acontecera dentro da jornada da Sociedade, ele voltou-se então para a Floresta das Trevas, um reino élfico pouco comentado nestes últimos séculos. A reputação de Thranduil, ambas terrível e grandiosa, era quase como se os homens do Sul não conseguissem decidir se o reverenciavam ou se o temiam. Todos sabiam que cavalgar além dos Campos de Lis era convidar a morte, apesar de que se isso era devido ao rei élfico ou aos vários habitantes de Dol Guldur nunca ficara muito claro.

Legolas levou algum tempo detalhando as maravilhas do seu lar, como os Elfos da Floresta haviam lutado uma guerra incessante contra o mal incansável para manter pelo menos as fronteiras norte limpas e iluminadas, e como o seu pai lutara contra as forças de Mordor, Orientais e Orcs, ao mesmo tempo em que o Senhor do Escuro atacara com malícia ainda maior sobre Rohan e Gondor. Se não fosse pela necessidade de Sauron de lutar contra ambos Lórien e a Floresta das Trevas, era improvável que o mundo dos Homens tivesse sobrevivido, apesar dos maiores esforços do portador do Anel.

Foi no segundo dia, enquanto os amigos estavam jantando tarde e especulando sobre o futuro glorioso que agora se revelava, que o mensageiro chegou. Ele fez uma breve reverência ao rei e ao convidado élfico do seu senhor, e então implorou a Faramir por um momento a sós. Não demorou muito para que anfitrião retornasse.

“Meu Senhor, uma questão surgiu e que requer a minha atenção imediata. Eu estarei fora por alguns dias, mas, por favor, continuem a gozar da minha hospitalidade por quanto tempo desejarem.” Apesar de suas palavras, Faramir parecia estar mais chateado que contrito, levando o rei a perguntar se havia algo que ele pudesse fazer.

“É uma questão de Guardiões, Senhor. Nós geralmente mantemos essas coisa entre nós mesmos.”

Aragorn franziu o cenho. “Eu devo saber o que ocorre em meu reino. E eu sou um guardião, apesar de ser se uma ‘casa” diferente, se assim desejar.”

“Sim, mas o Senhor Legolas não é. Esta é uma coisa para Homens.” Faramir olhou para Legolas como se pedindo perdão enquanto falava, não querendo ofender o seu novo amigo, mas sabendo que os seus próprios seguidores não permitiriam que um forasteiro presenciasse os seus mistérios internos.

Legolas tentou reprimir a repentina decepção e sentimento de rejeição que ele sentiu, e ficou surpreendido pela força dos seus próprios sentimentos. Que importância esse assunto dos guardiões tinha para ele? Ele podia sentir os olhos conhecedores de Aragorn sobre si e resistiu à vontade de fechar a cara para ele. Aragorn tinha visto o interesse do seu velho amigo no filho mais jovem de Denethor e podia dizer que, apesar do desconforto visível de Faramir, o elfo ainda assim se sentiu ignorado. Após passar uma grande parte da sua vida adulta sendo considerado pouco mais que um filhote por sua família adotiva, especialmente seus irmãos, ele não pôde deixar de sentir-se ao menos um pouco convencido. Sim, meu amigo, nós também temos segredos.

Faramir sentiu facilmente a afronta do príncipe. O entristecia pensar que esta situação pudesse agora tornar-se um empecilho entre eles. O Elfo era mais maravilhoso que o jovem pudera imaginar. Muitas horas ele havia passado lendo na biblioteca de seu pai, sonhando com o Belo Povo, em discutir história e folclore da sua própria gente com seres que haviam realmente testemunhado os acontecimentos, mas, agora, aquilo que mal havia começado poderia já estar perdido, e Faramir não sabia como aquecer o repentino gelo que ele sentiu no ar. Relutantemente, ele permitiu que o rei o conduzisse até um canto para conversar. Legolas saiu para checar o seu cavalo, que estava muito bem, mas qualquer desculpa servia.

“Não fique consternado, caro Regente, pois Legolas ainda é jovem entre o seu povo e facilmente sente a dor da exclusão.” Aragorn sorriu com compreensão. “Eu acho que talvez ele deseje conhecê-lo melhor e veja isso como uma barreira, tanto para a sua recém-forjada amizade, como para o desejo de dividir os fardos da liderança com você.”

“Mas o que eu posso fazer? Meus homens se oporiam vigorosamente à presença de um não-iniciado em nossos assuntos. O homem em questão seria humilhado.”

O rei ponderou sobre isso por um momento antes de encarar os olhos cinzentos.

“Você espera permitir ao filho único do Rei Thranduil compartilhar o governo de Ithilien, não espera?” Após a rápida afirmativa de Faramir, ele continuou, “Então seria sensato que você lhe dê acesso a todos os assuntos dentro destas fronteiras. É inevitável que, com o passar do tempo, talvez mais cedo do que você pensa, os assuntos dos homens e os dos elfos se encontrem, e talvez até conflitem.” Aragorn virou a cabeça admoestado-o. “Caberá a vocês dois trabalharem juntos para resolver essas questões.”

“Mas, Senhor,” Faramir começou ansiosamente, “meus homens...”

Com um aceno da sua mão, Aragorn o interrompeu. “Sim, eu sei bem da secritude inflexível dos guardiões! Só há uma coisa a fazer – você terá que iniciá-lo você mesmo.”

Foi algo fortuito o fato do guardião do norte ser maduro nos seus anos ou ele não teria sido capaz de esconder o seu divertimento ao ver a cor quase roxa que se espalhou pelo rosto do regente. Ou era verde? Havia muito tempo desde que os homens de Gondor tiveram que lidar com outras raças senão orcs. Os outros Povos Livres da Terra-média eram fábulas de tempos antigos ou, no máximo, habitantes de lugares distantes, não dispostos a se intrometerem nos assuntos dos homens. Mas como isso havia mudado! O novo rei tinha marchado para dentro da Cidade Branca com um elfo e um anão ao seu lado. Os reinos do Oeste haviam sido salvos por hobbits. Magos e Ents e águias eram assunto comum entre todos os homens. Como então manter divisões entre raças que lutaram e morreram juntas contra a Sombra? Faramir logo viu o absurdo da sua objeção já meio-formada.

E, afinal de contas, os seus homens eram uma casta acima do patrulheiro gondoriano comum. Uma pessoa não se embrenha no mato com uma espada e um escudo, esperando acabar com um inimigo que, de nove entre dez vezes, está em número muito maior que o seu. Guardiões eram guerreiros de tocaia, tendo o arco e a flecha como os seus maiores aliados, juntamente com a capacidade de se confundir com o ambiente com tanta naturalidade quanto um cervo. Eles não tinham reforços, ou estoque de suprimentos, ou uma posição fortificada para defender. Guardiões tinham de ser fortes, espertos e, acima de tudo, inquestionavelmente leais, uns aos outros e ao seu líder.

Estes homens não eram recrutados nas ruas. Muitos dos guardiões de Faramir eram soldados há muito no serviço, ávidos por contribuir com mais; alguns estavam dispostos a sacrificar tudo para vingar a morte de um irmão, ou pai perdido para o Inimigo; e alguns eram filhos sem tanta importância dos nobres, sabendo que não seguiriam os passos de seus pais, mas ainda assim querendo fazer suas vidas valer algo. Homens fortes com mentes flexíveis era o que o filho de Denethor havia atraído para o seu serviço. E era com eles que o futuro de Legolas, o ainda não nascido elfo-guardião, estava para ser decidido.




Última Atualização ( 28 de maio de 2007 )
 
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