| O Livro Negro de Arda - Capítulo 4 |
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| Por traduzido por Tatyana "Moriel" Zabanova | |
| 05 de abril de 2008 | |
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Continuamos a publicação da fanfic O Livro Negro de Arda, agora com o Terceiro Capítulo: O Coração do Mundo. Os demais capítulos podem ser encontrados aqui.
PARTE PRIMEIRA. O CORAÇÃO DO MUNDO
SOBRE AULË E YAVANNA. O COMEÇO DOS TEMPOS - Ouça, será que você nunca teve vontade de criar algo seu, totalmente novo? As pupilas de Yavanna dilataram-se: - Para quê? Como pode ser possível criar algo mais belo do que o pensado pelo Único? E não é a felicidade suprema - realizar a vontade Dele, personificar os planos Dele? - Mas não é interessante criar um animal alado ou uma criatura que poderá viver e na água, e na terra? - Para quê? Pois isso significa - desobedecer ao Plano da Criação. - Mas nos também fomos criados pelo Ilúvatar; e significa que não podemos criar nada contrário a vontade dele. Yavanna falava em tom de sermão, como se explicasse algo a um Maia-aprendiz incapaz de compreender: - Os animais devem viver na terra, ser quadrúpedes e cobertos por pêlos. No ar, vivem os pássaros, na água - os peixes, cobertos por escamas. Assim foi o Plano. Poderia isso ser de outra maneira? - Claro! Vamos, eu lhe mostrarei! “Isso não é bonito?” - perguntava Melkor. Yavanna acenava com a cabeça sem muita certeza, mas a sua fronte ficava cada vez mais sombria e, finalmente, franzindo a testa, ela disse: - Isso não deve existir. Nos podemos somente realizar a vontade do Único; mas algo assim a contradiz. Nos somos uma ferramenta nas mãos Dele, e nenhum de nos pode compreender toda a profundidade dos planos Dele. - Veja, é você mesma que fala... pode ser que essa parte da Visão não é conhecida por você. - Não. Todos os kelar e olvar deverão ser minhas criações. A ninguém de nos foi dado intrometer-se naquilo que os outros fazem. Você, digamos: foi dado a você o poder sobre o fogo e o gelo. Você não deve criar o vivo. Fazendo isso, você desobedece à vontade do Único. Caia em si, - disse Yavanna suavemente. - Compreenda, aquilo que você faz é um pecado. Desista. Não há nada acima da vontade do Único. - ... Veja. Aulë encolheu os ombros: - São pedras ordinárias, nada de especial... - Ouça atentamente, - Melkor sorriu. Depois de um breve silêncio Aulë perguntou, surpreso: - O que é isso? Canto... ou música... não entendo. De onde? - Este é o Canto da Rocha. Você gosta? O Ferreiro olhou para o Alado de forma um tanto estranha: - Tal coisa não estava no Plano de Eru. - Agora estará. Você não quer mesmo que seja assim? Isso não é bonito? Algo incompreensível acontecia com o rosto de Aulë. Estava rígido como uma máscara, mas de tempos em tempos contorcia-se levemente, e a voz estava rouca quando ele disse: - Ninguém se atreve a mudar o Plano da Criação! - Mas você sabe que nos mesmos criávamos a Música... - Não! Ela foi gerada pelo pensamento do Único, e ninguém poderá mudá-la contra a vontade Dele! - Veja o que você mesmo diz. Pois Eru queria que este mundo se tornasse belo - e não foi nos dado embelezá-lo de acordo com os nossos pensamentos? E o que há de mau nisso, se nos... - Cale-se! - gritou Aulë com desespero. - Será que você ainda não entendeu: tudo deve ser de acordo com a vontade do Único, e não como desejamos nos!.. Ele parou. - O que? - perguntou Melkor, abalado. - O que você disse? Aulë olhou-o apavorado. - Nada... - a voz dele tremia. Ele inspirou convulsivamente e adicionou, nítido e rispidamente: - Nada. Eu. Não. Falei. Você ouviu mal. - Repita! - Não tenho o que repetir! - Não tenha medo. Eu entendo. Eu o ajudarei, prometo. Melkor quis pegar a mão de Aulë, mas aquele se afastou rapidamente, protegendo-se com o braço como de um golpe: - O que você entende? - Sim, Eru ainda tem forças para castigar aqueles que não o obedecem. Eu sei o que é isso. Vença o medo. Eu te ajudarei. Acredite, todos juntos nos somos mais fortes do que ele. Nos somos livres. E ele verá isso. Ele vai entender - deve entender. Não tenha medo. Acredite em si mesmo. - Melkor falava suavemente, mas nos olhos escuros de Aulë havia somente horror e desespero. - Vá embora, - respirou ele, por fim. - Venha comigo. Então Eru não poderá atrapalha-lo. O rosto de Aulë alterou-se dolorosamente: - Vá embora, - pronunciou ele, rouco. - Eu peço. Eu ainda virei, virei, mas vá embora agora. Melkor meneou a cabeça: - Você nunca virá. E quando nos encontrarmos-nos novamente... Ele voltou-se para o outro lado e repetiu surdamente: - Quando nos encontrarmos-nos novamente... - Vá embora! - gritou Aulë. Agora ele sentava no chão, apertando a cabeça com as mãos, balançando de um lado para o outro. Depois se ergueu, e Melkor viu seus olhos vazios. A voz do Ferreiro era monótona e sem vida: - Aquilo que contradiz os Planos do Único, não deve existir. Ele ergueu o braço. - Pare! Se você fizer isso, você nunca mais ouvirá a voz de Arta... Ouça-me, eu imploro! “Não dá para fazer nada pela força, impossível... O abuso do poder gera o mal. Ele deve entender!..” - Não precisa ter medo, está ouvindo? Acredite-me, ninguém pode nos proibir de criar. Mas se você começar a destruir, justificando isso com o “assim mandou Eru”, a fronteira entre o bem e o mal deixara de existir para você. Sobrará somente a vontade de Eru, e você realmente se transformará numa ferramenta cega na mão Dele... E você deixará de ser um Criador! - expirou Melkor furiosamente. - Cale-se... eu não devo escutá-lo! Vá embora! Está me ouvindo, vá embora! ...O fogo irrompeu das rachaduras da terra, e em alguns minutos no lugar do vale havia somente uma lagoa de chamas - como uma ferida inflamada. E pareceu a Aulë – ele ouviu ou um suspiro, ou um gemido da própria terra. E depois veio o silêncio ensurdecedor. E o Ferreiro escondeu o rosto nas mãos, sem forças para suportar o olhar de Melkor, porque nos olhos do Alado não havia nada, alem de dor e compaixão. ... E mesmo assim, ele existe em algum lugar - o vale da Rocha Cantante. Os homens do Oriente contam sobre ele, e havia Elfos que o viram e ouviram o Canto da Rocha. Se bem que, as lendas dos Elfos não falam sobre isso. Mas o eco da memória vive no nome do reino élfico de Gondolin - Terra das Rochas Cantantes... ...Mas mesmo assim, Melkor mais uma vez foi até os Valar. Até a Valië Yavanna. Ela encontrou-o receosa. - Ouça-me, - pediu Melkor. - Vocês querem criar um mundo que desconhece a morte? - Sim. Pela vontade do Único, esse mundo será um jardim em flor, e belos animais vão vagar sob as cúpulas das arvores... - sorriu Kementári, sonhadora. - Vamos supor. Os animais, sem conhecer a morte, vão proliferar e se multiplicar, e muito em breve, acredite, os alimentos deixarão de ser suficientes. E então? Yavanna respirou fundo: - Para isso existe o Grande Caçador Oromë... - Certo. Caça é a alegria e diversão para ele, ele não conhece o cansaço... Mas mesmo assim - é improvável que ele poderá dar um jeito em todos os animais. E depois - ali, está vendo dois veados? Como você acha, o qual deles Oromë vai matar? - Não sei. - Eu te responderei. Aquele que é mais forte e mais rápido: que alegria há em perseguir um animal fraco e doente? O fraco deixará descendentes; sobreviverão - os mais fracos dos fracos, e isso é degeneração. - Sim... - pronunciou Yavanna, confusa. - E se tentar de um outro jeito? - Como seria? A criatura que saiu de traz das arvores por um sinal pouco notável de Melkor movia-se suavemente e silenciosamente, flutuava sobre o solo; somente os músculos rolavam sob o pelo macio, cinza prateado com manchas escuras de mármore. Olhos verdes pareciam luzir com luz própria: leopardo das neves. - Bonito? - Sim... Que maravilha... - suspirou maravilhada a Valië. Melkor sorriu ironicamente: - Só que não é de graminha que ele se alimenta. Ele necessita de carne para sobreviver. Olha, que caninos! - Que horror, - Yavanna recuou. - Não mais do que as diversões de Oromë. Só que este não vai matar por diversão. Somente o necessário para ele mesmo sobreviver. E em primeiro lugar - os fracos e os doentes. Sobreviverá aquele, cujas pernas são mais fortes, cuja respiração é melhor, cujo coração bate com mais ritmo - para fugir da perseguição. Sobreviverá aquele que tem uma visão mais aguçada, e o ouvido mais apurado - ele perceberá o inimigo a tempo. Sobreviverá aquele que tem chifres mais afiados, os cascos mais duros - ele poderá defender-se. E o predador que não conseguir chegar perto da presa despercebido ou alcançá-la, não poderá existir. Equilíbrio. - Mas... Isso é cruel! - Falo novamente: não mais que as diversões de Oromë. - E você quer que esses vivam em todos os lugares? - Não. Esses - nas montanhas; nas florestas e nas planícies - totalmente diferentes. - Você... Você é cruel! Sim, sim, cruel! Você quer trazer a morte ao mundo! - A morte e a vida são os dois lados da existência. Morte chegará ao mundo ela mesma. Alias, já chegou. E não há nisso nem minha culpa, nem meu mérito. Será que você não vê? Yavanna ergueu-se bruscamente: - Cale-se. Vá embora daqui. Eu não quero ouvi-lo. Melkor também se levantou: - Eu peço, pense. Ouça... - Eu lamento ter lhe dado permissão para falar. Vá embora! É certo o que falam de você: você é o inimigo, o impiedoso mal cego! - Você mesma verá que eu falei a verdade, - respondeu Melkor surdamente. - Eu não quero ver nada! Vá embora! Vá, está ouvindo?! |
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